Bruno Eugênio

Estou de volta depois de quase seis meses sem escrever nada publicamente. Tenho sim editado textos para este espaço mas quase nunca sinto vontade que sentia outrora de publicar e discutir o que andava estudando/confabulando/pensando por aqui… Nestes seis meses, minha vida pessoal e profissional deram uma guinada de 180 graus, e isso foi ótimo pois sem novas perspectivas a mente atrofia.

Nesta nova fase, o maior desafio que estou enfrentando liderando times não é tomar decisões ou construir produtos e times mas sim aprender a lidar com o ruído profissional onipresente nas organizações desde sempre mas potencializado na era da hiper conectividade, onde não se desconecta nem um minuto do WhatsApp, Skype, Hangouts, Slack, Facebook, Behance, Dribbble, <insira aqui sua rede social favorita> e tantas outras.

 

Mas o que é ruído, Bruno?

Dentre tantos significados, gosto bastante deste:

 

Som de várias vozes ao mesmo tempo; gritaria, tumulto.

Isso é ruído. Geramos tumulto quando queremos fazer um brainstorm (cada vez mais fora de moda, aliás), quando queremos provar que a logo que o time A fez é feia e redesenho todo um trabalho gráfico sem ao menos consultar o conceito das ideias por trás do que o time A pensou para o trabalho, quando achamos verdades absolutas em pilhas de dados que não servem de muita coisa (eu ouvi pessoas analisando métricas de likes no Facebook? Corações no Instagram?), a lista é grande, mas convido a você, leitor, a pensar em duas situações que você experimenta todos os dias no seu trabalho que se encaixem na descrição acima.

 

Voltando ao desafio: pense que todos os dias você como líder vai precisar desenvolver a habilidade de separar o que é ruído e o que é realmente relevante e isso é uma tarefa nada fácil, estressante até! Em diversos dias, penso que ser técnico seria mais fácil, pois é pegar um mero card no board do projeto, codificar e entregar no prazo – sim, ainda faço isso, porém em menor escala do que fazia antes; liderar times não é apenas apontar o norte das soluções técnicas e de negócio mas saber extrair o maior valor (pessoal e para o projeto, afinal valor varia bastante de pessoa para pessoa) de cada escolha, e isso requer uma quantidade absurda de análise e observação.

 

Em uma, era o meu dia dia. A outra, confesso, não tinha a menor prática.
E com isso tive que aprender a observar e sair do ruído, enxergar de fora a situação e tentar processar todos as entradas de dados em uma perspectiva diferente da qual estava acostumado. Pensei que ia enlouquecer no meio do processo (na verdade, ainda penso) mas a cada dia que vejo pessoas evoluindo por conta deste processo vejo que existem outras formas de formar grandes times e, acima de tudo, grandes profissionais. Ainda estou longe de um bom líder mas acho que o primeiro passo já consegui dar: parar de me juntar ao ruído e aproveitar mais o silêncio.

 

Imagem: Glenn Carstens-Peters – Unsplash

 

Por onde comecei?
Bem, a primeira coisa que notei foi que era cercado de pessoas que dominavam a arte da comunicação mas pecam na hora de se expressar fora do contexto da qual foram treinadas. Pensava que isso era um problema da área de exatas mas é um problema crônico nos gestores do Brasil: não geram feedbacks de qualidade, não se conformam em ter suas ideias não aprovadas (ou querem aprovar a sua ‘experiência empírica’ de anos como verdade absoluta) e por ai vai… Então, fechar a boca e abrir os ouvidos (e o coração) para decodificar as mensagens e aprender.

 

Segundo foi ler e reler algumas coisas. A bibliografia que tem me ajudado é velha conhecida minha:

 

  • Rápido e devagar, duas formas de pensar: reler mais de 500 páginas é uma tarefa homérica, e eu não o fiz. Porém, os conceitos de tomada de decisão apresentados no livro são importantes no mundo atual, cada vez mais diversificado.
  • O Sinal e o Ruído: é um livro sobre dados, mas me ajudou a entender de vez o conceito que usei aqui e adaptar para o ambiente que trabalho hoje. Em diversas situações, somos tentados a fazer as fórmulas mais malucas para tentar achar padrões em situações onde na verdade estamos confundido o que é o sinal (o dado que importa) e o que de fato é ruído (o lixo, o pseudo dado).
  • Motivação 3.0: Daniel Pink têm conceitos bastante úteis sobre gestão de times ágeis que não tinha como praticar na minha posição anterior. É muito legal você ver na prática que o modelo antigo de gestão não se encaixa mais em diversas situações atuais.

Terceiro, aprender a dar a voz as pessoas, colocar-las em situações de protagonismo: se as pessoas não falam mais, como vou aprender a ser um bom ouvinte? Impossível! Nos últimos projetos que liderei, tenho me preocupado em não somente dar o crédito às pessoas que participam da concepção mas de envolver-las, tornando a experiência rica e fazendo com que a jornada seja tão importante quanto o destino final. É complexo no meu contexto desenvolver isso (trabalho em um departamento que atende diversas coisas ao mesmo tempo) mas quando posso, tenho notado resultados muito melhores do que os que não são feitos desta forma.

Por fim e não menos importante: aprendi a diferenciar uma discussão sem sentido de uma simples divergência de ideias. Para quem me conhece, sabe que há muito tempo uso práticas de Design Thinking em meus projetos, e um dos pilares que uso é o conceito do “double diamond” do Design Council

Na fases “discover” e “define” deste diagrama, achava bastante comum algumas discussões acaloradas. As ideias individuais de cada um precisam ser ouvidas, assim como suas experiências e percepções. Porém, não podemos usar o empírico “eu acho” como método de intimidação. O problema não é um gestor falar para o seu time “a melhor ideia, vence” e “você tem alguma ideia melhor?” mas é necessário saber promover isso de maneira que todos se sintam em condições iguais, além de cargos, além de achismos, para cada um opinar de verdade sobre o problema que estão tentando resolver.

 

Aprendendo a falar menos e ouvir mais, buscando ajuda literária, ajudando as pessoas a serem protagonistas e evitando discussões sem sentido disfarçadas de divergências, estou aprendendo a lidar com um mundo de ruídos. Essa tem sido a maior experiência que estou aprendendo nos últimos seis meses, espero poder contar mais sobre o ruído e meus resultados daqui há seis meses 🙂

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