Bruno Eugênio

Tem gente que ao ler a palavra discussão já faz cara feia, outros adoram dar uma de galo de briga e se rotulam “do contra” justamente por adorarem – erroneamente – discutir sobre tudo. Nesse post vou tentar demonstrar, com base em algumas referências do Design Thinking, psicologia e em experiências pessoais, que o ato de discutir mais sobre temas comuns deveria ser algo positivo e não assustador.

Começando pela palavra: O que, de fato, significa “discussão”? 

Segundo nosso amigo Michaelis Online, discussão é:

dis.cus.são
sf (lat discussione) 1 Ato ou efeito de discutir. 2 Exame de um assunto por meio de argumentos; argumentação que tem por fim chegar à verdade ou elucidar dificuldades; debate: Da discussão nasce a luz. 3 Contenda, disputa. 4 Controvérsia, polêmica. 5 Altercação, briga. 6 Dir Sustentação de razões pelas partes litigantes para que se esclareça a verdade do fato e se demonstre a quem assiste o direito pleiteado.

Como as experiências negativas ocupam um espaço maior nas nossas lembranças (voltaremos a falar disso nesse post), geralmente lembramos das partes ruins da definição da palavra e das experiências pessoais (brigas com namorado, com os pais…) e terminamos dando a palavra uma carga emocional negativa. Ao analisar esta pequena definição, ela fala que discussão é também o ato de examinar coisas ou elucidar dificuldades por meio de argumentos.

No dia a dia (pessoal e profissional) discutir deveria significar analise, exploração e não infinitos bate bocas sem soluções e cheio de donos da verdade.

Mentalize: não há problema em divergir da opinião de alguém. 

Como experiência pessoal, posso dizer: Divergir causa espanto nas pessoas. Já fui perguntado diversas vezes “você sabe com quem está falando?” e sempre respondi “sim, com alguém que quer discutir saudavelmente sobre o assunto X“. Devido ao medo de discutir com alguém, as pessoas evitam fazer questionamentos diversos sobre problemas, deixando de explorar mais soluções. Podemos observar bem essa prática em Brainstorms com times onde o nível hierárquico é desnivelado (Gerência sênior junto com júnior, por exemplo): É comum alguém com cargo baixo evitar a todo custo gerar uma discussão sobre a ideia do chefe, certo? Mas será mesmo que a ideia do chefe ganharia aprovação de todos se o ambiente fosse propício a discussão? Onde os membros da organização entendessem que a discussão não é inimiga e sim aliada do dia a dia? Existem muitos mitos sobre sessões de brainstorm [1] porém a constante é que todos tendem a baixar a cabeça e seguir o manipulador quando na verdade deveriam discutir. E muito.

Double Diamond e afins: Explicações sobre a necessidade da discussão. 

Após ANOS fazendo brainstorms e vendo que não era bem assim que a banda tocava, algumas entidades e empresas ao redor do mundo passaram a ter contato com os processos de criação utilizados pelos designers. Os estudos levaram Tim Brown e a IDEO a cravar o termo “Design Thinking” em um artigo da Havard Business Review [2]. Depois diversas entidades, academias e empresas ao redor do mundo (incluindo esse que vos escreve) passaram a adotar práticas, conceitos e técnicas do design em diversas vertentes, em especial, a da inovação.

Um desses conjuntos de técnicas, conceitos e práticas mais conhecidos no meio do design thinking é o Double Diamond, mantido pelo Design Council, órgão do governo do Reino Unido [3] que pode ser resumido no seguinte esquema:

DoubleDiamond_580

 

Onde vemos nas fases de descoberta (discover) e desenvolvimento (develop) um processo não linear: Discussão!!! Primeiro, se discute se as ideias geradas são viáveis (financeiramente, tecnicamente…) e, depois desse primeiro ponto de discussão, você precisará fazer provas de conceito, discutindo ainda mais sobre a ideia em questão.

Times de alto desempenho não tem medo de discussão: faz parte do processo de melhoria contínua revisão e discussão de ferramentas, métodos, ideias e processos que fazem parte do dia a dia da equipe.

Comunicação 100% operante.

Sem ter um canal de comunicação funcional aberto, um time pode afundar em crises de identidade e morrer por falta de discussão. Porém, poucos se importam com a comunicação funcional durante a formação de times e, em âmbito organizacional, a formação do funcionário para que ele possa doar 100% do que ele tem de melhor durante o tempo de trabalho. E a grande parte da comunicação já é quebrada quando estamos gerando feedback para membros do time e comandados em geral: Tendemos a ignorar o fato de que informações ruins são mais marcantes do que as boas! [4] Não que devemos esconder tais problemas porém, a forma que os transmitimos pode fazer toda diferença entre um time. E após martelar na cabeça de um novato que os pontos ruins dele são graves, um elo de comunicação é quebrado, fazendo com que as informações não cheguem de maneira igual para todos os membros do time, gerando desconforto que pode ser a pá de cal para um grupo colaborativo. E sem comunicação efetiva, discussão vira sinônimo de briga: basta ver quando duas pessoas que já não se entendem muito bem no dia a dia tem opiniões diferentes sobre um determinado tema! Geralmente termina em piadinhas, concordância pela política da ‘boa vizinhança’ ou em gritos nos casos mais extremos. Há também o outro lado, onde a pessoa que tem sua ideia rebatida ou desmontada devido a um bom argumento encara a situação como problema. Para esses, é importante salientar que para um time, o mais importante é a solução do problema e não quem solucionou: todos ganham como time e todos perdem como time! [5]

Finalizando

Depois de diversas perguntas sobre “vale ou não vale discutir sobre o assunto X”, cheguei a conclusão que qualquer solução apresentada ou decisão a ser tomada pode ter seus argumentos ou métodos melhorados se for discutida de maneira inteligente. Porém, para chegar nos argumentos e melhorias, é necessário gerar um ecossistema de confiança entre os envolvidos, se apoiando nos pilares da boa comunicação, da sinceridade e do respeito e igualdade no dia a dia. Deixar de lado o cargo e abrir a mente e o espírito na hora de ouvir, rebater com argumentos e não com imposições e dogmas podem tornar qualquer problema menos complexo com base discussão argumentativa.

É isso, em 2015 vamos abaixar menos a cabeça e discutir mais!

[1] – The Myth of Brainstorm Session – The Next Web http://thenextweb.com/entrepreneur/2013/11/03/myth-brainstorming-session-best-ideas-dont-always-come-meetings/ 

[2] – Design Thinking – Tim Brown para a Havard Business Review https://hbr.org/2008/06/design-thinking

[3]- Introdução do Design Council para o Double Diamond http://www.designcouncil.org.uk/news-opinion/introducing-design-methods

[4] – Negative Information Weighs More Heavily on the Brain: The Negativity Bias in Evaluative Categorizations – Tiffany A. Ito, Jeff T. Larsen, N. Kyle Smith, and John T.Cacioppo http://www.wisebrain.org/media/Papers/NegativeBiasInEaluativeCategories.pdf

[5] – De que é feito um time? Rodrigo Rosa – ThoughtWorks Brasil – http://www.thoughtworks.com/pt/insights/blog/taking-care-what-matters-your-team

comentários

comments

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *