Bruno Eugênio

Costumo brincar que o LinkedIn hoje, maior das redes sociais voltada para o público profissional foi corrompida pelo ego em excesso: todos os profissionais que lá habitam hoje são excepcionais, todos fazem dinâmicas incríveis e trabalham em ambientes fantásticos, com os melhores profissionais do planeta ao seu lado. Alguns de fato podem se gabar de trabalhar em lugares que ganham prêmios como Great Place To Work ou pesquisas de satisfação do I Love Mondays, por exemplo, mas a realidade é que nem sempre você será “sortudo” de trabalhar em um lugar que tem essas insígnias para mostrar. E isso não significa que você, por associação, trabalhe em um lugar ruim (isso é tema para um próximo post).

O problema deste tipo de exibição do “Eu” profissional em excesso termina gerando uma pressão absurda na mente das pessoas que, por algum motivo, não estão com seu psicológico em dia: vivemos desafios cada vez maiores em nossos empregos, o desemprego no Brasil ainda preocupa mesmo com as reformas que supostamente tornariam nosso mercado mais competitivo e a pressão de se manter empregado em tempos como esse geram dois efeitos bastante conhecidos dos psicólogos: a síndrome do impostor e o efeito Dunning-Kruger. A primeira, mais divulgada, é quando o indivíduo não consegue enxergar em si os méritos dos seus feitos, sempre atribuindo o sucesso dos seus feitos a um fator externo e nunca ao seu esforço e conhecimento, se auto denominando uma fraude. Já o efeito Dunning-Kruger é observado quando indivíduos que não possuem conhecimentos ou habilidades sobre um determinado assunto acham que podem opinar como experts no mesmo. Ambos são bastante perigosos para sua carreira profissional, em especial na época de tanto ego sendo disparado em redes como o LinkedIn. Te convido a dar uma pausa na leitura deste post, abrir o LinkedIn e conferir quantas pessoas você desconfia que sabem “mais ou menos” do que estão falando ou fotografando…

 

Então quer dizer que o LinkedIn é o culpado, Bruno?

Não, não é: Eu recebo propostas de trabalho via LinkedIn, ele cumpre o que promete no sentido amplo da palavra: conectar pessoas para geração de Networking. Mas de uns tempos para cá, muita gente levou o termo “Networking” para o lado errado e passou a fazer marketing pessoal na plataforma, vendendo apenas suas vitórias. Com isso, headlines bizarros como esses que separei aqui:

Não é proibido fazer marketing pessoal (este blog é um exemplo de um marketing pessoal, caso não tenha notado) porém as pessoas perderam um pouco a noção do aceitável: Sério que fazer parte de uma lista do Gustavo Caetano virou status? Pessoas que fazem chatbots com aprendizado de máquina achando que estão realmente usando inteligência artificial? Um fogo de palha sem fim! Note a diferença para três nomes “famosos” que separei do próprio LinkedIn:

Cara, se o Kent Beck não liga por ter sido um dos originais a assinar o manifesto ágil, a escrever a biblioteca JUnit, porque raios você deveria esquentar com seus feitos? Ou Pior, porque raios você deveria ficar cantando aos quatro cantos sobre ele?

Fique esperto para não se deixar levar pelos títulos bonitos e as vitórias que andam contando por ai: vivemos em uma época onde o stress e a sensação de ficar de fora (FOMO – Fear of Missing out) podem nos deixar malucos sem nos dar conta: especificamente falando sobre a área de tecnologia da informação, a quantidade absurda de novas tecnologias que surgem para resolver diversos problemas como navegação web em dispositivos móveis, iniciativas em ciências de dados, analytics, big data e desenvolvimento móvel é tamanha que é quase impossível acompanhar sem focar. Como temos a mania de sempre comparar nossos feitos com os dos coleguinhas, nunca vamos achar que estamos fazendo a melhor solução pois fulano acabou de postar uma coisa incrível que ele (supostamente) fez usando o último framework JavaScript do momento e lá vai você se jogar na vala por não estar acompanhando isso. Por isso, dê valor ao seu esforço e comemore suas conquistas: você as alcançou com o que tinha de melhor naquele momento… Se foi satisfatório para resolver um problema que você se propôs a resolver, sensacional! Perfeccionismo é um dos principais sintomas da síndrome do impostor, acompanhados de trabalho excessivo e medo de falhar.

 

Do outro lado, acho que o LinkedIn potencializou a quantidade de pessoas que sofrem do efeito Dunning-Kruger: Umberto Eco já tinha sentenciado que “As redes sociais deram voz aos imbecis”, no LinkedIn esse efeito foi além, tem MUITA gente que está cantando de galo sem de fato entregar o que diz que entrega ou simplesmente mascara os seus resultados, se aproveitando de posições elevadas para escreverem linhas vazias de prática no Pulse (o jornal do LinkedIn) e massagear o ego puro e simples, uma enxurrada de fotos de certificados PMP de pessoas que nunca gerenciaram projetos de verdade, diversas certificações do mesmo assunto por empresas diferentes que não provam nenhum efeito prático. Dunning e Kruger sabiam que as pessoas que sofrem dessa “falsa percepção das suas habilidades” tem dificuldades de reconhecer que são inaptas para o trabalho que elas dizem ser mesmo após de um treinamento nesta atividade: Desconfie de qualquer pessoa que depois de um treinamento sustenta um certificado/diploma mas NUNCA aplica o que foi estudado na prática mas vive sustentando que “É certificado” para conseguir emprego por ai.

 

Sim, é um assunto polêmico mas como andei alertando no post anterior a esse, é de suma importância prestar atenção no aspecto psicológico do trabalho que exercemos e seus efeitos práticos nas nossas relações com a comunidade, família e amigos. Sabendo separar o LinkedIn pode trazer boas coisas, aprecie com moderação e na dúvida, lembre-se que você é mais importante 🙂

 

 

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