Bruno Eugênio

Os ânimos andam exaltados. A economia arrastando tudo para o buraco. Ameaças veladas pairam no ar e você, mero desenvolvedor de software acha que na sua área ainda não há motivo para a crise, afinal as empresas estão lucrando, porém há algum tempo que aquele aumento não chega. Você ouve notícias de planejamento, promessas e mais promessas de dias melhores sendo feitas por ai… Se identificou? Vem comigo!

Não resisti e coloquei a vinheta do SAUDOSO comando da madrugada!

Um pouco de background

Desde quando o mundo e mundo há o problema de reconhecimento no âmbito profissional. Afinal, os sistemas estilo pirâmide (uma larga base de trabalhadores em funções básicas, a média gestão e a alta cúpula) que regiam as empresas até pouco tempo atrás eram extremamente propícios a discriminação e falta de reconhecimento. Reconhecimento era conseguir, depois de ralar muito, um aumento que te possibilitava casar e ter filhos. As gerações de baby boomers deu lugar as gerações x e Millennials e uma nova hierarquia, mais horizontal (ou flat, como dizem por ai) precisou ser posta em prática. Isso gerou uma série de ganhos mas também trouxe uma série de problemas.

A velocidade versus o hardworking

Ao passar das gerações, o trabalho duro foi sendo posto em xeque pelo fato de ser sempre associado a longos períodos de tempo e gerador de frases célebres dos anos 40 como essa:

“Nada cai do céu. Parem de reclamar disso ou daquilo e trabalhem. Aqui <insira o nome da empresa> ou em qualquer lugar, a recompensa só vem assim.”

Porém com o passar dos anos, os profissionais de diversos setores já chegavam ao mercado de trabalho com uma boa formação, muitos com MBA e além de almejar mais, entendiam que seu trabalho gerava um valor agregado importante para a empresa e que a relação “trabalho duro x tempo” não era a medida que deveria ser adotada ao pensar em recompensar pessoas. Existia um elo perdido entre o reconhecimento e o valor do trabalho realizado: se você faz um bom trabalho e tem pouco tempo no quadro de funcionários, não há por que a empresa lhe recompensar, afinal de contas, você é novato. Se você por algum motivo tentasse burlar isso, era recriminado. Porém, como o teorema do macaco, uma nova geração de empregados chegou sem saber que deveria ser assim e sairam do comportamento automático imposto… E hoje a nova geração já tenta ir além da velocidade versus qualidade do trabalho. No cenário atual, não basta apenas fazer um bom trabalho: o reconhecimento vai além da recompensa financeira.

Virou jogo. 

Sim, dinheiro é a principal motivação pelas quais as pessoas trabalham (não adianta dizer que não…) porém ele hoje não é mais a baliza do sucesso profissional. Com a introdução de novos mecanismos como feedbacks e programas de incentivo, muita gente começou a achar que tudo é feedback e reconhecimento sem ao menos analisar o contexto. Hoje temos um verdadeiro bug sobre como e quando devemos recompensar uma pessoa que tem bons feedbacks e mostra evolução sempre. Infelizmente, o feedback é interpretado como um jogo e não como uma ferramenta.

Por exemplo, hoje li uma frase em um comentário que falava assim:

Se engana dizer que fulano não é reconhecido na empresa! Já ouvi, da boca do CEO, algo como: “Quem daqui consegue fazer serviço X? Só vejo fulano daqui e beltrano da unidade z e só.”

E o cidadão afirmar que fulano e beltrano são reconhecidos. O problema é que fulano e beltrano reclamam que estão defasados financeiramente há alguns anos. Além disso, são relativamente novos em suas funções atuais devido a trocas funções exigidas pela empresa – exigindo deles um esforço extra em aprender novos truques da nova área além dos que encheram os olhos de quem achou que era uma boa a troca. E você acha que isso é um reconhecimento? Não, nessa linha isso é apenas uma informação obtida por uma pesquisa em uma base de conhecimento e o CEO, malandro, está vendo se alguém não deixou de atualizar a mesma! Reconhecimento seria

“Fulano e Beltrano são os únicos que sabem fazer o serviço X, vamos dar a oportunidade deles para que fiquem melhores. Sou grato por ter fulano e beltrano aqui trabalhando conosco! Eles são bons no que fazem, podem ser exemplo para uma nova leva de funcionários se interessarem pelo serviço X!”.

E nisso nem falo de dinheiro propriamente dito… O reconhecimento pode vir de diversas formas como treinamentos (que são caros), prêmios (em dinheiro ou não), valorização profissional com equilíbrio entre vida pessoal x profissional… E dentro do contexto do reconhecimento entra o danado do feedback: é uma ferramenta poderosa usada pelo campo da administração em diversas teorias onde se cria um momento para relatar ao trabalhador um parecer sobre seu trabalho, sendo apontados pontos fortes e fracos, visando a melhoria do SERVIÇO prestado pelo empregado, ALINHADO com o CRESCIMENTO PROFISSIONAL do mesmo. Para Carlos Hilsdorf em um artigo sucinto sobre o que é feedback:

“Feedback é um processo de alimentação que ocorre através do fornecimento de informações críticas para o ajuste de desempenho e performance de uma pessoa.”

Se o desempenho e performance melhoram com o feedback, ele traz junto consigo o reconhecimento e consequentemente a valorização vem. Uma hora, a valorização fatalmente será no contexto salarial, afinal nada é mais justo para quem se empenha em dar seu melhor todos os dias, certo?

Ai que entra o problema. Hoje, com o cenário instável da nossa economia a desculpa é “estamos em um momento de crise” e “aquela” compensação financeira acaba ficando a ver navios. Imagine você dois anos sem “aquele” aumento salarial esperado para conseguir completar a parcela da casa ou do carrinho? Uma hora apenas feedback por si só não se sustenta se não vier acompanhado de ganho financeiro! As empresas precisam se programar para recompensar seus melhores talentos. Hoje existe um paradoxo: diversas empresas querem passar que estão jogando Xadrez (fazendo planejamento estratégico em cenários incertos aos montes, por exemplo) mas querem que suas peças sejam maleáveis para eles jogarem Tetris!

Ai uma hora o jogador vai te colocar em um local onde você não encaixa 100% e todos os seus feedbacks não serão levados em conta.

G A M E O V E R.

Abaixo, alguns links que tinha guardado sobre o tema:

http://www.administradores.com.br/artigos/carreira/o-valor-do-reconhecimento-nas-empresas/74698/

http://www.ibccoaching.com.br/tudo-sobre-coaching/lideranca-e-motivacao/o-reconhecimento-e-a-motivacao-profissional/

PS: Esse é um texto ANTIGO que achei que teria algum espaço agora devido a época do ano (início do ano) ser a favorita para um “feedback formal” (ODEIO ESSE TERMO). Não tem nada a ver com a atual campanha que corre no Recife com o aumento (deveras questionável, aliás) que as empresas de tecnologia da informação estão propondo.

 

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