Bruno Eugênio
E ai, as primeiras palavras desse título parecem familiares para você? Se não, devo recordar o querido (e distorcido) manifesto ágil em sua primeira linha: “Indivíduos e interação entre eles mais que processos e ferramentas”. Lembrou, certo? Muito bem, agora com essa frase em mente, olhe para o seu redor e veja se as empresas que fazem questão de dizer que aplicam ágil ligam para o clima organizacional e sequer pensam em implantar uma cultura de pensamento ágil, versátil e propício a criatividade nas empresas? Infelizmente a grande maioria vai dizer claramente que eu estou certo (se não estivesse, não seria capaz de escrever esse post…). 

Há muitas empresas indo pelo caminho certo e investindo não somente em treinamentos de kanban, scrum e demais técnicas/metodologias que se aplicam ao contexto da agilidade mas também formando profissionais que são, todos os dias, incentivados a pensar fora da linha “comum” de raciocínio para propor as soluções mais interessantes para os clientes cada vez mais exigentes. Mas existem empresas que fazem uma mistura um pouco que equivocada de princípios e expectativas: Esperam pensamentos fora da caixa com uma produção de linha de fábrica, linear e padronizada! Quem faz isso, Bruno? Resposta: As famosas Fábricas de Software! 

Do dicionário online de português, fábrica é:

s.f. Estabelecimento industrial onde se transformam matérias-primas em produtos destinados ao consumo, ou que se dedica à produção de outras mercadorias: fábrica de doces.

O problema que sabemos é que nossa “matéria prima” (requisitos, estórias, contos) é subjetiva e exige um grau de abstração e criatividade para termos o nosso produto finalizado com sucesso. Se torna mais simples com o product owner próximo da equipe de desenvolvimento! Só que quando você aproxima seu cliente da linha de produção, automaticamente você deixa de ser fábrica: Imagina você lá na Ford dizendo “Eu quero a marcha do meu carro um pouco mais leve, o pedal do freio uns 5cm mais alto, as cores do painel azul… não, pretas!” 
Imagina você ai, ao lado do operador , pedindo ajuste do seu motor? 

Sim, o que isso tem a ver com a cultura organizacional mesmo?

Imagine que você é cobrado por um resultado como se seu ambiente fosse a IDEO (maior consultoria em Design e inovação do mundo) mas trabalha na FOXCONN (a famosa fábrica de semi escravos chinesa que faz os iDevices)? É isso que, mais ou menos, acontece nas fábricas de software: Você é cobrado para ser inovador mas deve seguir uma linha de produção (mesmo que, com o advento das metodologias ágeis nas fábricas de sw, continua sendo repetitivo devido a práticas de gestão como PMI, Prince2 e o mix delas incorporados nas organizações nos níveis de produção) e, se propor sair do normal da fábrica, é cobrado em dobro devido a burocracia dos processos fábris que ditam o ritimo das empresas, muitas vezes disfarçados de processos medidores de maturidade que são, em sua maioria, usados não para medir maturidade mas para criar trilhos que tendem a deixar o “processo” linear e lento. Por isso que Agile e modelos como CMMI se bicam e manter os dois é sempre uma guerra. 
IDEO – Espaços sem barreiras geram um clima interessante para a inovação
Além de ser cobrado para ser inovador, quem trabalha em uma fábrica de software geralmente encontra ambientes físicos que metem medo: Espaços com pessoas seguindo horários o tempo todo, divisões de pessoas, comunicação visual quase zero (quase pois ainda temos os quadros de tarefas que, na maioria dos casos, só um time entende). 
Para onde quero chegar:
  • A cultura organizacional deve levar em conta que empresas de software são ambientes, acima de tudo, criativos e não fábricas lineares. 
  • As pessoas devem se sentir bem ao compartilhar conteúdo inter projetos, para toda a empresa. 
  • Os espaços físicos não podem tratar apenas o individual, onde as ideias juntas fazem mais sentido. 
  • A cultura organizacional deve incentivar a propagação de novas ideias, sem favorecimento das mesmas por cargos e sim por valor. 
  • Divergir é criar opções: quando todos vão na mesma direção de primeira, há um pensamento linear que pode matar ideias inovadoras e novas oportunidades. 
  • Convergir é fazer escolhas: Você só terá que fazer escolhas quando há alguém questionando o seu modelo. E isso é bom. 
  • Uma matriz mental de experimentação deve ser inerente a todos os participantes. O processo é um guia e não O guia. 

Bem, o que não dá é apenas fazer o básico do Scrum o tempo todo: Estimar, refinar, rodar sprints e entregar pedaços de produto. Isso todo mundo já sabe fazer! O que vai gerar destaque é “O quanto as empresas de TI conseguem ser criativas sem perder o foco na satisfação do cliente?” E para inovar, o caminho não é fazer fábricas e sim preparar o terreno para soluções criativas. 

E ai, só uma cultura organizacional com foco em inovação.

Até mais!

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