Bruno Eugênio
Talvez você nunca tenha ouvido falar em Jeremy Bentham, famoso jurista e filósofo inglês do século XVIII, expoente do Utilitarismo, teoria ética que responde todas as questões acerca do que fazer, do que admirar e de como viver, em termos da maximização da utilidade e da felicidade, e o primeiro a cravar o termo “deontologia”, que são os princípios éticos aplicados nas atividades profissionais. Jeremy também foi o responsável pela projeto do Pan Ótico, um projeto de construção que inicialmente foi concebido para servir como prisão modelo e depois aplicado a institutos de educação. O termo Pan Optismo é conhecido como a à observação total, a tomada integral por parte do poder disciplinador da vida de um indivíduo. Assustador, não?  Bentham, com sua perseguição com a observação ainda conseguiu um feito inédito: Seu esqueleto e corpo foram embalsamados e seu corpo está hoje exposto na Law School da University College London. Sinistro, não?
Auto Ícone

Pois é, sinistro. E como ideias mais estranhas sempre arrumam executores, o modelo de prisão pan-optica foi construído em vários lugares do mundo: socialistas e capitalistas se aproveitaram do layout concebido por Benthan e geraram presídios como o Presídio modelo de Cuba, hoje um centro cultural. A ideia de inibir as pessoas pela observação constante e controle total é bem antiga mas ganhou o reforço após as teorias utilitaristas serem discutidas pelo mundo. Hoje, contudo, a sociedade como um todo ganhou um reforço de peso na observação e controle: A Internet.
Nos dias atuais, geramos alguns gigabytes de dados que dizem muito sobre nós: O que gostamos, onde andamos, onde comemos, o que compramos, quem conhecemos, onde moramos, quando saímos e por ai vai. A quantidade varia mas o número é grande, tão grande a ponto de fazer florescer um mercado todo especial em cima destes dados, tendo como ponto de partida serviços de redes sociais e dispositivos móveis que são capazes de coletar estes dados em tempo real. O discurso? Homens são animais sociais, que precisam conviver em grupo! O futuro é social: Negócios sociais, redes sociais, trabalhos sociais, conhecimento social… E estamos aptos a coletar/ceder dados de nossas vidas voluntariamente apenas pelo impulso, o movimento de manada –  o autor Daniel Kahneman no excelente livro Think Fast – Slow explica bem este comportamento.

Presídio modelo – Cuba – clique para aumentar a imagem
Então, quanto do seu tempo você fica despejando informações pessoais na grande rede? Fotos, mensagens, leituras, compartilhamentos e demais ações nas redes sociais são todas monitoradas e as grandes redes como Facebook, LinkedIn e demais conseguem com bastante exatidão traçar um auto ícone seu no melhor estilo do corpo de Jeremy Bentham: Em uma caixa de vidro, exposto para quem pagar por isso. E não estou falando controles de privacidade e sim de mapeamento de hábitos seus na grande rede. Exemplos? Se você possui uma conta do Facebook e visita sites que possuem o botão “curtir” integrado, mesmo que você não clique no “curtir” o Facebook sabe que você vistou tal site, e que ele é ligado a um determinado costume seu. Se você usa sua conta do Facebook para logar em sites de terceiros como “atalho” para cadastro, o Facebook monitora todas as suas ações de cliques, e por ai vai.

Hoje as grandes redes oferecem recursos incríveis para fazer com que você compartilhe mais e passe mais tempo dentro da rede social. Nós somos a mercadoria deles, afinal não existe almoço grátis! Não assusta ver corporações como a Amazon que quer enviar o produto ANTES do cliente confirmar a compra: Eles já têm tantos dados sobre nosso comportamento que estão querendo antecipar nosso pensamento, nossa vontade. Ainda hoje em termos de Brasil discutimos privacidade em termos de rede, com o Marco Civil da Internet que foi aprovado porém o governo nada pode  fazer a nível de controle pessoal, afinal você compartilha por livre e espontânea vontade ou pela vaidade que nos faz pensar que todos estão interessados no que comemos, bebemos ou saímos.

Jeremy Bentham ficaria orgulhoso de ver alguns dos seus princípios tão bem executados (voluntariamente?) via Web. Já que modelos de redes sociais como Facebook tem uma arquitetura estranhamente parecida com o seu projeto Pan Óptico, onde todos estamos sendo observados e observamos a toda hora, o tempo todo.
O alerta fica em: a Rede Social não é A INTERNET. Ela é apenas uma parte dela que tenta dominar o resto que sobra. No entanto, cada vez mais novos empreendedores apostam que o futuro é convergir para a rede social (seja criando novas redes sociais ou usando as antigas como plataformas). A rede social é só uma parte e existem outros universos que podem ser explorados tanto na criação de novos negócios quanto para o uso pessoal. Você não precisa marcar presença nas redes sociais afinal de contas todos precisamos de um pouco de paz.
Este post foi resultado uma provocação sobre o tema que fiz no Facebook (irônico, não?). Não tenho nada contra o comportamento demasiadamente expositivo que alguns levam a risca hoje em dia porém é necessário encontrar a dose correta de informação que você acha interessante compartilhar.

Para saber mais:

* Utilitarismo e Jeremmy Benthan.
Jeremmy Benthan: http://www.ucl.ac.uk/Bentham-Project/who
Utilitarismo: http://pt.wikipedia.org/wiki/Utilitarismo
Auto Ícone: http://www.ucl.ac.uk/Bentham-Project/who/autoicon

* Dados
How Much Data is Created Every Minute? http://mashable.com/2012/06/22/data-created-every-minute/

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1 comment on “Pan Ótico social”

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