Bruno Eugênio

Eu gosto de um desafio… Hoje no velho café pós almoço fui indagado sobre qual era a minha visão e a escrever um pouco sobre protestos e conectividade. Não é segredo para ninguém que a Internet tornou mais rápido o debate de ideias e facilitou a organização de coletivos e protestos pelo mundo todo. Não faltam exemplos como a Primavera Árabe,  o Occupy Wall Street nos EUA, protestos do Gezi Park na Turquia e a “revolta dos 0,20 centavos” no Brasil são suficientes para comprovar o poder que a Internet colocou nas mãos do povo: om recursos cada vez mais baratos de hardware e software é possível em pouco tempo produzir material suficiente para lançar uma campanha a baixo custo e longo alcance. Softwares livres de edição de imagens, texto e plataformas como Twitter e YouTube são armas poderosas para qualquer um que queira divulgar uma causa hoje.

OK, você pensa “vamos lá, fazer acontecer!” porém, a verdade é que a Internet falhou em um dos seus principais propósitos: Descentralização de poder. Como a grande rede é um território novo, houve um período de adaptação de governos em entender como fazer o seu braço “valer” dentro do cyberespaço. E hoje podemos dizer que além do braço do estado, a Internet tem todos os traços do mundo real fielmente reproduzidos dentro dele. Aliás, é complexo separar hoje onde começa e onde termina o raio de atuação da rede e o do mundo real: A Internet hoje tem uma simbiose com a sociedade nos mínimos detalhes.

Já falei que é fácil iniciar uma ideia e organizar um coletivo pela grande rede. Segundo Eric Smith, ex CEO do Google no ótimo livro A Nova Era Digital – Ed Intrinseca, 2013, “(…) Apesar de testemunharmos mais movimentos revolucionários, teremos menos resultados revolucionários – revoluções totalmente concretizadas que resultem em reviravoltas políticas radicais e progressivas. A inexistência de líderes capazes de se sustentar no poder, associada a respostas mais sábias do Estado, impedirá a ocorrência de mudanças profundas (boas ou ruins) na escala das revoluções, como visto por exemplo nas revoluções árabes no final de 2010”. Ou seja: Aumentam os recursos? aumenta a sapiência do Estado! Afinal, quem lembra como a revolução dos 0,20 centavos terminou? É, deu Dilma… Ou você realmente acha que hoje, o Kim Kataguiri, é um “líder”? Sinto muito te decepcionar mas não vai dar em nada ir para a rua vestindo verde e amarelo pelo simples fato dele não ter o poder “real” que é experiência e atuação em parlamento… Política fora da esfera do YouTube. O discurso dele é comovente mas ele não é nada diante os tubarões de Brasília com essa conversa de von Mises!!

A centralização da rede já é real: Os modelos se adaptam ao ponto de você não ter mais nenhum CD em casa e achar normal pagar um serviço de Streaming. Então você acha mesmo que em movimentos como o “Ocupe Estelita” não existam pessoas que o querem apenas como palanque? Claro, existem sim pessoas de bem, a causa é nobre (por sinal, sou contra o projeto atual – sim, o revisado) porém qual é o desdobramento que o movimento tem? Novamente, cai na força política. E para pior nesse caso em específico. E os prédios subirão – Infelizmente. Apesar de movimentos como esse serem o exemplo claro de que a Internet aproxima e leva para o “olho do furação” movimentos que eram de “nicho” como Universidades e centrais sindicais ela também manda um recado: Você não está protegido apenas porque está “online”. Afinal, quantos posts são feitos colocando os dissidentes como figuras subjugadas? Mulheres árabes no meio do protesto eram consideradas impuras pelos muçulmanos, durante o movimento passe livre, todo estudante era black block e no Estelita todos que vão lá fumam maconha segundo blogueiros e chargistas pernambucanos. Esse é o sutil recado do mundo real dizendo “acho melhor você ficar ai”. Ainda segundo Smith “Haverá tantos desses fronts digitais no futuro que a competição por atenção entre grupos ao redor do mundo vai se acirrar” Afinal, você se sente cansado de TANTA informação contradizente? Acho que sim.

O complicado é terminar

Para encerrar essa visão rápida, quero colocar você para pensar um pouco: Quantos dos militantes sazonais são convertidos realmente pelas causas que defendem? As revoluções tendem a começar, terem picos de euforia (no meio da simbiose internet – mundo real) e depois dispersar com o resultado demorado (alô geração Y). Muitos funcionam apenas como geradores de ruído, pouco se importando em se engajar de fato em uma causa. Então, estariam os movimentos atuais gerando celebridades instantâneas porém vazias em termos de liderança? A tecnologia ajuda a encontrar pessoas mas não as torna líderes.

Henry Kissinger, ex-secretário de Estado do governo Nixon nos EUA, emenda: “O cidadão dotado de autonomia conhece a técnica de levar as pessoas à praça, porém não sabe o que fazer com a multidão depois que ela chega à praça. Sabe ainda menos o que fazer com ela depois que chega ao poder”. Bingo! E a instabilidade vira prato cheio para radicais, regimes autoritários…

Apesar de ajudar, a conexão não vai engajar o número suficiente de pessoas ou formar novos líderes, a vivência do protesto vai.

Vira, mexe, bifurca e faz bagunça… Mas o complicado (ainda) é terminar.

PS: Eu não sou a favor do atual governo. Este é apenas uma visão minha sobre protestos organizados pela Internet. Você é livre para comentar o que bem entender porém reservo-me no direito de ter minha visão baseada em vivência e relatos/ideias como as de Lawrence Lessig, Eric Smith, Jaerd Coen, Steven Levit, Aaron  Swartz, Slavoj Žižek e outros.

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